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Cidade fundada a partir de um seringal de nome Foz do Muru, no início do século XX. Em 1907 passou a ser vila. Anos depois, 24 de Abril de 1913, foi elevada à categoria de cidade. Até 1943 o município se chamou SEABRA, quando então recebeu o nome TARAUACÁ, palavra indígena que quer dizer "rio dos paus ou das tronqueiras". O abacaxi gigante que a região produz, de até 15 kg, juntamente com as inúmeras tarauacaenses que venceram o concurso Miss Acre, Tarauacá ficou conhecida como “Terra da mulher bonita e do abacaxi grande”.

TARAUACÁ E O CASO SÓLON DA CUNHA (II)

Sancho Pinto Ferreira Gomes

Como citar

Sólon da cunha
(euclidesite.wordpress.com)
Ofício sobre a morte de Solon da Cunha com nota de Joel Bicalho Tostes. Tarauacá, Acre, 12 maio 1916. In: ANDRADE, Juan C. P. de (org.). Euclides da Cunha site. Disponível em http://euclidesite.wordpress.com/documentos. Acesso em [data]. Publicado originalmente no Jornal Oficial. Semanário da Prefeitura de Tarauacá, Acre, nº 6, 21 maio 1916. Reproduzido e comentado por Joel Bicalho Tostes no extinto site oficial da família de Eculides da Cunha.

Nota de Joel Bicalho Tostes
Transcrevemos a seguir ofício relatando o assassinato de Solon da Cunha, filho de Euclides, fato muito pouco conhecido em seus detalhes. Ele morreu em 6-maio-1916 e em 4-julho do mesmo ano também foi assassinado, no Rio de Janeiro, seu irmão Euclides Filho. A transcrição segue rigorosamente a redação e a grafia empregada.
Após a transcrição, comenta o pesquisador:
Merece cuidadosa reflexão o estranho fato de um jovem em pleno vigor dos 23 anos de idade ir isolar-se, algum tempo após o assassínio do pai Euclides da Cunha, em um lugarejo ermo perdido no interior do Acre, de difícil e fatigante acesso até mesmo nos dias de hoje, quando se dispõe das vantagens de transporte de toda a natureza; e em 1915 /1916 os sacrifícios para atingir Tarauacá deveriam ser enormes.
Por que abandonaria as vantagens do Rio de Janeiro ? Por que não escolheria São Paulo ou outra cidade mais acessível, Salvador por exemplo, onde contaria eventualmente com parentes ?
Sua mãe casou em 1911 com quem matara o seu pai. Solon sofreu forte influência de Anna, como conseqüência das ausências de Euclides, pelas viagens no desempenho das atribuições de trabalho como engenheiro. Era também amigo dos irmãos Assis, em especial de Dinorah. Por fim Solon estava com a mãe na casa de Dilermando e assistiu ao desenrolar do terrível drama de 15/8/1909.
Tentemos imaginar outro aspecto: além das dores físicas, a indescritível dor moral de quem, morrendo, via ali também presente o seu primeiro filho…
Embora a fonte única que propagou na época o acontecimento não mereça credibilidade, como ficou provado ao longo do tempo, se o “perdôo-te” foi realmente pronunciado pelo infeliz Euclides já agonizando, pode-se supor a quem esse perdão era destinado.
Villa Feijó, 12 de maio de 1916.
Exmo. sr. dr. José Thomaz da Cunha Vasconcellos,
m.d. Prefeito de Taraucá

Com o mais profundo pezar, cumpro o dever de levar ao conhecimento de v. exc. o lamentável incidente em que foi victimado o nobre e saudoso Delegado Auxiliar de Policia deste 2º Termo cidadão Solon da Cunha, no dia 6 de maio, sabbado as 9 horas da noite. 

Pelo officio numero vinte e quatro, aquella autoridade communicou a v. exc. que ia fazer a diligencia para abrir inquerito e prender os culpados na tragedia de 21 de abril, da qual foram protagonistas João Muniz Correia Lima, socio da firma Correia Lima & Cª, seu irmão Francisco Muniz Correia Lima, seu aviado o criminoso impune Antonio Sobralino de Albuquerque, seus freguezes João Ribeiro, Pedro Paulo Pessôa (vulgo Pedro couxo), João Ignacio, José Malaquias, Frutuoso de tal e mais 28 homens armado de rifles e embalados, cujos nomes ignoro, dos seringaes Santa Cruz e Sant Anna; e Possidonio de Oliveira, socio da firma Cardoso & Oliveira, João Nogueira e o velho João Baptista Lima, José Candido de Oliveira e Manoel Monteiro, do seringal Mira-Flores, tendo sido assassinados os tres primeiros deste seringal, e se evadido os dois ultimos. 

Dos seringaes Santa Cruz e Sant Anna, somente consta Ter sido ferido, com uma bala no braço esquerdo, perto do hombro, Francisco Muniz Correia Lima. 

Manoel Affonso (sentado), Solon (centro)
e Euclides da Cunha Filho, filhos de
Euclides da Cunha, por Bastos Dias.
(euclidesite.wordpress.com)
Partimos desta Villa, no dia 1º deste as 6 horas da manhã, chegando no seringal Mira-Flores do Rio Jurupary, propriedade de Cardoso & Oliveira, deste 2º Termo e do 7-º Districto de Policia, no dia 1 as tres horas da tarde, acompanhado pelo cabo e duas praças aqui destacadas; ahi foram notificados 8 homens deste seringal e partimos no dia seguinte a 1 hora da tarde para o local onde se deram as gravissimas occurrencias que já aludi. Pernoitamos numa barraca do seringal Mira-Flores, de onde partimos no dia 5 as 8 horas da manhã passando ainda as 10 horas na barraca de “carneiro”, e as duas horas da tarde passamos na barraca “Maracujá”pertencente ao seringal “Santa Cruz”, propriedade dos senhores Correia Lima & Cª e ahi effectuamos a prizão de Mariano e Bernardino de tal, freguezes da firma acima, que nos acompanharam até a barraca dos Ambrosios”, nas proximidades da qual prendemos ainda Luiz de Almeida, que nos acompanhou também. Ao chegarmos a referida barraca fez-se um reconhecimento verificando-se lá se encontrarem 4 individuos preparados para resistir a quem chegasse, pois estavam deitados em suas redes com os rifles ao alcance da mão. O preso Luiz de Almeida, fez ver ao Delegado que dois daquelles homens entregavam-se resistindo porem os outros dois, effectivamente assim aconteceu. Dissera ainda Luiz de Almeida, que tendo morto uma mambú e indo deixa-la na barraca aos companheiros, momentos antes de ser preso, os encontrou todos quatro de rifle em punho e os quaes lhe disseram: quando voce se aproximar da barraca faça signal, gritando de longe. Depois de estarmos senhores do terreno, o Delegado sahio na frente no terreiro, acompanhado pelo cabo, os dois soldados e os notificados, ficando eu e Luiz de Barroso, guardando os tres presos, intrincheirados na bocca de uma estrada de seringueira, a cinco metros de distancia da dita barraca, indo o Delegado um pouco adiante pediu licença subindo as escadas da barraca e disse: sou Delegado de Policia. Os dois atacaram-no de rifle em punho, tendo o criminoso Francisco Leandro, disparado seu rifle no Delegado o projetil atinjindo-o nas proximidades do umbigo, do lado direito. Apezar de ferido Solon desfechou um tiro no peito do assassino prostando-o e deu ordem de fogo, no que foi obedecido, cahindo em seguida o outro companheiro que de rifle em punho jurava vingar a morte de Francisco Leandro, o qual chamava-se Bernardino de tal; os outros dois aproveitaram-se da ocasião e evadiram-se em vertiginosa carreira. Tudo isto não durou mais de dois de dois minutos. Sendo sabedor por Luiz Almeida, freguez de Correia Lima & Cª , que a uma hora de distancia se achava em uma barraca o criminoso Antonio Sobralino de Albuquerque, aviado da dita firma acima, com nove homens armados de rifles esperando qualquer aviso, achei prudente, regressar d’alli em continente para obter socorro para o Delegado que estava mortalmente ferido e fiz partir a toda pressa dois dos notificados Luiz Barroso e Alexandre Albuquerque para buscar medicamentos no barracão Mira-Flores e gente, pois eram seis horas da tarde e receiava-se a cada instante novo ataque, tratando logo da condução de Solon em uma rede o que se fez, partindo-se dalli as 6 horas da tarde e assim andamos, em busca da barraca “Revolta”, por um varadouro horrivel até 9 horas da noite em que o saudoso Delegado fez parar o pessoal e perguntou se estava com a falla mudada dizendo estar quasi cego, dando em seguida um longo suspiro e disse: ai meu pai! Assim faleceu o nobre e distincto brazileiro Solon da Cunha, no sagrado cumprimento de seus deveres. Prosseguimos com o cadaver até 1 hora da madrugada, ora por varadouros, ora por uma estrada de rodagem e ahi esperamos que o dia amanhecesse. Demos-lhe sepultura nas proximidades da barraca de Carneiro de tal, freguez da firma Cardoso & Oliveira, do seringal Mira-Flores. Apos Ter lhe dado sepultura segui para o dito seringal acima citado e de lá regressei a esta Villa, conduzindo Luiz Almeida, e mais tres testemunhas que presenciaram as occurrencias de 21 de abril p. passado, bem como cinco rifles, que aprendi, 1 na barraca de “Maracujá” e os 4 ultimos na barraca dos “Monteiros”, onde se deram as tristes e lamentaveis occurrencias que acabo de expor. 

Cumpre-me ainda levar ao conhecimento de v. exc., que o brioso e nobre Solon da Cunha, ao sahir desta Villa, para a infeliz diligencia, dispediu-se de todos dizendo Ter certeza de morrer, na mesma, ao ponto de Ter deixado cartas para a sua noiva e seu irmão, apezar disto sempre alegre, delicado, destemido como um bravo, colocando sempre o sagrado cumprimento dos deveres acima de tudo. Com o desaparecimento do morto illustre perdeu v. exc. um dos leaes e dedicado servidores, e a Patria Brazileira, um moço de honestidade reconhecida e de um caracter puro e sem mancha, virtudes estas, que rarissimamente se encontram em nosso Paiz, que chora a falta de homens da fibrattura de Solon da Cunha.

Saudações
Sancho Pinto Ferreira Gomes


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OLHAR TARAUACAENSE > TERRA MORENA

Sobretudo aos tarauacaenses ausentes da terra natal, vale conferir o blog TARAUACÁ: TERRA MORENA, criado pelo jovem e talentoso músico Giovanni Accioly, que, por sua vez, se revela um ótimo fotógrafo. É a poesia da imagem.

Bairro Novo.

Bairro Ipepaconha.

Rua de acesso a Rádio Difusora AM de Tarauacá.

Prédio onde funciona a Rádio Difusora AM e Aldeia FM em Tarauacá.

Série OS JORNAIS TARAUACAENSES > A REFORMA



Frontispício do Jornal A Reforma, Num 540, ano XII,
de 17 de fevereiro de 1929.
(Cortesia enviada pelo ilustre José Augusto de Castro e Costa,
acreano residente em Brasília)
Lançado em 12 de maio de 1918, A Reforma era um jornal voltado principalmente para as questões políticas, econômicas e sociais do Território do Acre, região em que circulou durante 36 anos. Foi fundado na Vila Seabra (atual Tarauacá), localidade situada na Foz do Rio Murú que servia de sede ao então Departamento do Tarauacá – uma das divisões administrativas do antigo território federal do Acre.

Ligado ao Partido Republicano do Tarauacá, o jornal se envolveu intensamente nas disputas políticas locais. Na época essas disputas eram polarizadas pelas facções lideradas por José Thomaz da Cunha de Vasconcellos e Raphael Gondim, aos quais A Reforma fazia ferrenha oposição e acusava de corrupção, e, de outro lado, chefes políticos como os coronéis Antônio Frota Menezes e Júlio Pereira Rocque, Pires Rebello e Galdino Ramos. Grande parte do noticiário político era dedicada a denúncias das irregularidades cometidas pelos inimigos políticos, quando o jornal estava na oposição, e a elogios e homenagens, quando o grupo a que era ligado estava na situação.

Publicado aos domingos em tamanho standard (45 cm x 30 cm, aproximadamente), tinha de quatro a seis páginas por edição, cada uma com cinco colunas de texto e imagens esparsas. O exemplar custava 1$000, com assinaturas semestrais e anuais a 20$000 e 30$000, respectivamente. A redação ficava na rua Cel. Juvêncio de Menezes, sem número. Em fevereiro de 1919, A Reforma mudou sua sede para um prédio maior, na mesma rua Juvêncio de Menezes, onde antes funcionava o antigo Fórum da cidade.

As razões para a fundação de A Reforma foram anunciadas no primeiro número:

A crise social que atravessamos no Departamento [de Tarauacá] estava exigindo a instituição da bôa imprensa, severa nos principios, digna na linguagem, elevada nas aspirações, serena nos intuitos, superior no objectivo. Comprehendendo essa necessidade (...), foi resolvida a creação da A Reforma, que adopta como programma: trabalhar, empenhando a melhor vontade indo até o sacrifício, pelo aperfeiçoamento moral, progresso e engrandecimento material do Departamento. O raio de acção do nosso jornal ha de estender-se a todas as manifestações da actividade humana, nos diversos desdobramentos da vida politica, administrativa, commercial e agricola do Departamento.

Também nesse número o jornal homenageava o coronel Antonio Frota Menezes, ex-governante local, e publicava o termo de contrato celebrado entre o coronel Julio Pereira Rocque, dirigente do Partido Republicano de Tarauacá e prefeito substituto do Departamento do Tarauacá, e José Florêncio da Cunha, para o arrendamento do material tipográfico da prefeitura.

Entre as questões locais cobertas pelo jornal, sobressaem os problemas locais de fronteira, os obstáculos ao desenvolvimento da região, a reforma administrativa de 1920, as relações do antigo território com o governo central, as questões amazônicas, a migração de populações nordestinas para a região, em especial durante o ciclo da borracha ou ainda os congressos seringalistas locais, o primeiro dos quais foi realizado em maio de 1928.

No plano nacional, o jornal se engajou, em 1919, na candidatura de Rui Barbosa para a presidência da República, após o falecimento de Rodrigues Alves. Em 1930 apoiou a revolução liderada por Getúlio Vargas e a nomeação de Francisco de Paula Assis Vasconcellos para interventor no Acre.
O jornal também publicava textos literários, crônicas elegantes, colunas sociais, atos oficiais, homenagens, chegadas e partidas de figuras ilustres à cidade, editais públicos, retratos, circulares de empresas locais, crônicas esportivas, obituários, natalícios, noticiário policial, anúncios, entre outros assuntos. A partir de 28 de setembro de 1919, A Reforma começou também a publicar folhetins.

Colaboram em A Reforma Mathias Olympio de Mello, Raymundo Belfort Teixeira, Levy Saavedra, Plácido Barbosa, Júlio Dantas, Hermes Fontes, Marques Sobrinho, Ayres dos Reis, Godofredo Maciel, Péricles Moraes, Guerra Junqueiro, José Hygino, Leoni de Sá, Sansão Gomes, João Pinheiro, Barbosa Vianna, Bruno de Seabra, Ricarêdo de Góes, R. Relvas, Fran Valme, W. Valle Mello, Mar de Physa, Armando Gonçalves, Alberto Moreira, Joaquim Maria Ruella, Tabajara, José Potyguara da Frota e Silva, Benedicto Bellem, Leonardo Motta, Berillo Neves, Coelho Neto, Júlia Lopes de Almeida, Ruy Barbosa e Mendes Fradique, entre muitos outros.

Francisco Ângelo Silveira gerenciou o jornal por seis anos. Nos últimos anos do periódico a figura forte era o tenente Gualter Marques Baptista, identificado em alguns momentos como um de seus fundadores e também como editor ou principal redator.

Em 1920, o jornal adquiriu o equipamento tipográfico usado pelo jornal O Cruzeiro do Sul, que circulava na região do Alto Juruá, e devolveu à Prefeitura as máquinas arrendadas desde a sua fundação Na segunda metade da década de 1920, A Reforma se encontrava em nova sede, na rua Cel. João de Paiva, na Praça Plácido de Castro. Em janeiro de 1931, passou a ser dirigido por Júlio Pereira Rocque. Em 25 de junho de 1933, Júlio Pereira Rocque deixou a direção, que passou a Manoel Vieira da Cunha como seu “diretor político” e José de Sá Barreto, antigo chefe das oficinas tipográficas, como “editor-gerente”.

Segundo Rauana Batalha Albuquerque, em “De Bilac a Xisto: Manifestações poéticas nos jornais tarauacaenses (1900-1920)”, o jornal deixou de circular em 1934. A última edição data de 25 de novembro de 1934.


Fontes

1. ALBUQUERQUE, Rauana Batalha. De Bilac a Xisto: Manifestações poéticas nos jornais tarauacaenses (1900-1920). In Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.

2.Tarauacá. IBGE Cidades. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 . Acesso em 30 jul. 2012.

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